O restaurante está cheio, várias pessoas estão sentadas em mesas para dois. Uns estão a olhar para as paredes, em busca de algo interessante, uma vez que não encontram nada nas pessoas com quem se sentam.
Outros falam com a companhia que têm, ou fingem que estão interessadas e que a conversa é boa ou realmente sentem que estão ali bem, que há significado no que dizem; no que pensam; no que sentem.
A zona de fumadores está igualmente cheia, duas pessoas sentadas numa mesa destacam-se das restantes. São absolutamente iguais a todas as outras. Um homem e uma mulher estão a ver o empregado a colocar a comida na mesa. Lulas recheadas, foi a mulher que escolheu a refeição, ciente do seu poder de escolha.
O homem olha para o prato posto à sua frente e esconde o seu desprezo e nojo, sorrindo para a mulher à sua frente.
Pega no garfo e mete um pouco do conteúdo do prato na boca, engole-o tentando não sentir o sabor. Neste momento sente apenas nojo.
Um maço de tabaco está em cima da mesa, o homem olha para ele num acesso de desespero. Precisa de se ocupar, precisa de algo que o abstraia do restaurante; da pessoa à sua frente; das outras pessoas no restaurante, tão desesperadas por encontrar algo que nunca encontrarão.
Abre o maço e tira um cigarro, ainda está cheio, foi comprado recentemente e ainda possui o brilho e toque característicos de um maço novo. Acende o cigarro e inspira com prazer e algum alívio. Sente também culpa, sabe que a mulher despreza o fumo e sente já o olhar crítico dela, pensando no quando odeia que ele faça isso.
Ignora-a, sentido mais uma vez o acesso de ódio vindo de alguma parte do seu ser que lhe é desconhecida. Não se interessa pelo facto de não saber porque a odeia, sabe que a odeia, é suficiente.
O fumo do cigarro condensa-se junto das luzes acima da mesa, o homem observa-o enquanto engole mais comida, cada vez que o faz sente o mesmo desdenho que sentiu da primeira vez que a meteu na boca.
O homem dá por si a pensar na razão de ali estar, num sítio que não gosta, com uma pessoa que não gosta e a comer coisas que não gosta. Não encontra a razão, sente apenas a necessidade de estar com alguém, de se sentir amado, mesmo que o amor não seja recíproco.
Até a atracção que o mundo lhe diz para sentir lhe é totalmente estranha e longínqua. Abstrai-se da corrente de pensamentos da sua cabeça, continua a comer e a fumar. Fala com amulher, ela pensa que o único defeito dele é fumar. Tudo o resto nele é fabuloso, até o sexo feito com amor e sentimento como ela nunca tinha feito antes. Não está ciente de que cada uma dessas sessões de sexo é um suplício para o homem, que se esforça ao máximo para se excitar, sentido apenas o mais leve indício de prazer.
Ouvem-se vários gritos de desapontamento, há um jogo de futebol a passar nas várias televisões espalhadas pelo restaurante. Ao homem não interessam os jogos de futebol, meros meios de fuga de uma realidade que é demasiado agreste para ser enfrentada. Meter-se em frente a uma televisão e ansiar por golos e victórias é mais fácil do que lutar.
O homem grita quando uma das equipas marca golo, o seu grito sendo abafado pela multidão que grita com ele. Dá por si a pensar no que acabou de fazer, é realmente mais fácil festejar. Senta-se com um sorriso na cara.
Carlos André da Palma Alves
marlonfrancisco Said:
on May 9, 2008 at 11:49 pm
O homem é gay. Está dito!
Adriana Said:
on May 10, 2008 at 2:38 pm
É assim mesmo, a vida. E nós, seres insuficientes, sempre tentando disfarçar!