Não precisas de mim tanto quanto pensas.
Ele vai para o seu quarto à procura do que tem em mente, passa os dedos pelos livros da estante e sente os momentos que passou com eles, as incontáveis horas que os teve nas mãos; as emoções que sentiu ao ler as histórias de cada personagem.
Mas não procura histórias, procura definições. Encontra o dicionário mais longe do que estava à espera. Apercebe-se da razão de estar tão distante dos outros livros, uma definição não é o mesmo que uma história, é mais restrictiva, mais limitadora mas mais conclusiva. Nas definições não há lugar para interpretações.
Tira o dicionário do lugar onde está e leva-o para o sofá, procura a letra que começa a palavra que quer e passados alguns momentos de ligeira confusão encontra-a.
Há um sentimento de iluminação, de escuridão que é subitamente esclarecida por algumas linhas de texto. É então isto que significa, é então isto que sente…
Não precisas de mim tanto quanto pensas.
Os seus olhos estão sonhadores, fixados no nada e no vazio. Pensa em tudo o que se passou nos últimos dias e no modo como tudo poderia ter sido diferente se soubesse aquelas linhas de que acabou de ler. Como algumas palavras poderiam ter impedido tantos acontecimentos. As palavras podem significar tudo ou nada, depende de quem as ler, da sua capacidade de as compreender. Palavras podem mudar uma existência, justificá-la ou anulá-la.
Não precisas de mim tanto quanto pensas.
Ele levanta-se e devolve o dicionário ao seu lugar. De imediato se apercebe de tudo o que mudou, de tudo o que vai mudar apenas com uma definição. Pega no telemóvel e escreve as conclusões a que chegou, é uma mensagem longa, cheia de sentido e muito baseada na definição que leu. “Mensagem enviada.”
Não precisas de mim tanto quanto pensas.
Carlos André da Palma Alves
“Because while the truncheon may be used in lieu of conversation, words will always retain their power. Words offer the means to meaning, and for those who will listen, the enunciation of truth.”
V For Vendetta