Archive for May, 2008

(Mad)ness

Leitores, hoje foi o dia em que mais perto estive de um avc. A fila para comprar o bilhete para o concerto de Madonna era enorme mas lá consegui. Mal dormi na noite de ontem a pensar que os bilhetes iam esgotar. Andei no autocarro com 120 euros (comprei o bilhete de uma amiga minha também) e sempre que alguém olhava para a minha mala eu agarrava-a com força. Quando cheguei à Fnac ia-me dando o badagaio, a fila, além de grande, avançava muito lentamente. O tempo que esperei foi grande mas deu para fazer amigos. Agora tenho o bilhete fechado a sete chaves e faço parte do clube das pessoas mais felizes do mundo.
Nunca mais é Setembro… mas hell, pelo menos sei que vou concretizar um dos maiores sonhos da minha vida.

Carlos André da Palma Alves 

Definitions

Não precisas de mim tanto quanto pensas.
Ele vai para o seu quarto à procura do que tem em mente, passa os dedos pelos livros da estante e sente os momentos que passou com eles, as incontáveis horas que os teve nas mãos; as emoções que sentiu ao ler as histórias de cada personagem.
Mas não procura histórias, procura definições. Encontra o dicionário mais longe do que estava à espera. Apercebe-se da razão de estar tão distante dos outros livros, uma definição não é o mesmo que uma história, é mais restrictiva, mais limitadora mas mais conclusiva. Nas definições não há lugar para interpretações.
Tira o dicionário do lugar onde está e leva-o para o sofá, procura a letra que começa a palavra que quer e passados alguns momentos de ligeira confusão encontra-a.
Há um sentimento de iluminação, de escuridão que é subitamente esclarecida por algumas linhas de texto. É então isto que significa, é então isto que sente…
Não precisas de mim tanto quanto pensas.
Os seus olhos estão sonhadores, fixados no nada e no vazio. Pensa em tudo o que se passou nos últimos dias e no modo como tudo poderia ter sido diferente se soubesse aquelas linhas de que acabou de ler. Como algumas palavras poderiam ter impedido tantos acontecimentos. As palavras podem significar tudo ou nada, depende de quem as ler, da sua capacidade de as compreender. Palavras podem mudar uma existência, justificá-la ou anulá-la.
 Não precisas de mim tanto quanto pensas.
 Ele levanta-se e devolve o dicionário ao seu lugar. De imediato se apercebe de tudo o que mudou, de tudo o que vai mudar apenas com uma definição. Pega no telemóvel e escreve as conclusões a que chegou, é uma mensagem longa, cheia de sentido e muito baseada na definição que leu. “Mensagem enviada.”
Não precisas de mim tanto quanto pensas.

Carlos André da Palma Alves 

“Because while the truncheon may be used in lieu of conversation, words will always retain their power. Words offer the means to meaning, and for those who will listen, the enunciation of truth.”

V For Vendetta

Pretending

O restaurante está cheio, várias pessoas estão sentadas em mesas para dois. Uns estão a olhar para as paredes, em busca de algo interessante, uma vez que não encontram nada nas pessoas com quem se sentam.
Outros falam com a companhia que têm, ou fingem que estão interessadas e que a conversa é boa ou realmente sentem que estão ali bem, que há significado no que dizem; no que pensam; no que sentem.
A zona de fumadores está igualmente cheia, duas pessoas sentadas numa mesa destacam-se das restantes. São absolutamente iguais a todas as outras. Um homem e uma mulher estão a ver o empregado a colocar a comida na mesa. Lulas recheadas, foi a mulher que escolheu a refeição, ciente do seu poder de escolha.
O homem olha para o prato posto à sua frente e esconde o seu desprezo e nojo, sorrindo para a mulher à sua frente.
Pega no garfo e mete um pouco do conteúdo do prato na boca, engole-o tentando não sentir o sabor. Neste momento sente apenas nojo.
Um maço de tabaco está em cima da mesa, o homem olha para ele num acesso de desespero. Precisa de se ocupar, precisa de algo que o abstraia do restaurante; da pessoa à sua frente; das outras pessoas no restaurante, tão desesperadas por encontrar algo que nunca encontrarão.
Abre o maço e tira um cigarro, ainda está cheio, foi comprado recentemente e ainda possui o brilho e toque característicos de um maço novo. Acende o cigarro e inspira com prazer e algum alívio. Sente também culpa, sabe que a mulher despreza o fumo e sente já o olhar crítico dela, pensando no quando odeia que ele faça isso.
Ignora-a, sentido mais uma vez o acesso de ódio vindo de alguma parte do seu ser que lhe é desconhecida. Não se interessa pelo facto de não saber porque a odeia, sabe que a odeia, é suficiente.
O fumo do cigarro condensa-se junto das luzes acima da mesa, o homem observa-o enquanto engole mais comida, cada vez que o faz sente o mesmo desdenho que sentiu da primeira vez que a meteu na boca.
O homem dá por si a pensar na razão de ali estar, num sítio que não gosta, com uma pessoa que não gosta e a comer coisas que não gosta. Não encontra a razão, sente apenas a necessidade de estar com alguém, de se sentir amado, mesmo que o amor não seja recíproco.
Até a atracção que o mundo lhe diz para sentir lhe é totalmente estranha e longínqua. Abstrai-se da corrente de pensamentos da sua cabeça, continua a comer e a fumar. Fala com amulher, ela pensa que o único defeito dele é fumar. Tudo o resto nele é fabuloso, até o sexo feito com amor e sentimento como ela nunca tinha feito antes. Não está ciente de que cada uma dessas sessões de sexo é um suplício para o homem, que se esforça ao máximo para se excitar, sentido apenas o mais leve indício de prazer.
Ouvem-se vários gritos de desapontamento, há um jogo de futebol a passar nas várias televisões espalhadas pelo restaurante. Ao homem não interessam os jogos de futebol, meros meios de fuga de uma realidade que é demasiado agreste para ser enfrentada. Meter-se em frente a uma televisão e ansiar por golos e victórias é mais fácil do que lutar.
O homem grita quando uma das equipas marca golo, o seu grito sendo abafado pela multidão que grita com ele. Dá por si a pensar no que acabou de fazer, é realmente mais fácil festejar. Senta-se com um sorriso na cara.

Carlos André da Palma Alves