Today

A toalha passa pelos seus olhos antes de ir para o seu cabelo. Esfrega-o com força a mais, o seu cabelo sempre foi forte mas após a lavagem fica sempre frágil. A toalha volta a passar pelos seus olhos. Acordou minutos antes, não dormiu muito mas dormirá nesta tarde. Quando o vulto laranja da toalha passa,  apercebe-se de que algo mudou. A certeza de tal facto começa a apoderar-se dele, espera antes de fazer qualquer coisa, quer certificar-se de que não é apenas um humor passageiro. Mais uma das suas vontades, mais um dos seus dramas, mais uma emoção fingida.
Hoje é o dia. Sabe-lo agora. Hoje é o dia em que toda uma existência deixa de ser espiralada para passar a ser recta. Hoje é o dia em que deixa tudo para trás, o bom e o mau. O passado e o presente. Hoje é o dia em que o esquece. Em que toda a dor que foi acumulando e acarinhando será aniquilada. Sabe-lo agora, após a toalha passar pelos seus olhos.
Continua o acto metódico de secar o cabelo, seca o corpo também e veste-se. Está pronto. Neste dia, de todos os dias, tão normal como todos os outros. Tão aborrecido como todos os outros. Tão fatal como qualquer outro. Hoje é o dia.
Rasga as cartas e deita-as para a fogueira. Com elas vão as fotografias. Ardem numa fogueira de fogo e dor. Ele não chora. Apenas olha para os vários papéis que ardem e pensa em tudo o que está a arder com eles. Hoje é o dia em que o deixa para trás.
Quando acaba, sente-se renovado. Não exactamente feliz. Ainda é cedo para isso. Mas sabe que hoje, neste dia de todos os dias, a possibilidade de ser feliz existe outra vez.

Nota: A ideia para este post não me veio como veio para os outros posts. Não foi num café, num autocarro, em casa ou antes de ir dormir. A inspiração veio-me no Bairro Alto às duas da manhã, com uma garrafa de traçado numa mão, um cigarro na outra, rodeado de algumas das melhores pessoas deste planeta (esta foi lamechas) e à frente de um bar gay. 

Carlos André da Palma Alves 

3 Comments »

  1. ana Said:

    OH! how cute! :)

    looool.. a inspiraçao que uma garrafa de traçado pode trazer!
    Faz uma pessoa abrir os olhos pra a vida, hãn? :P

    vamos repetir! (com mais moderaçao.. mas vamos repetir….)

  2. marlonfrancisco Said:

    «Mas sabe que hoje, neste dia de todos os dias, a possibilidade de ser feliz existe outra vez.»

    Saberá? Sabes, eu creio que a noção de felicidade é relativa. Bom, até a noção de relativo é relativa. E melhor ainda, a noção do que é uma noção ainda mais relativa é! Mas, sem me divagar muito e sem tentar entrar pelos meandros do que será, ou não, felicidade, não sei se algum dia esse teu personagem poderá ter a felicidade (ou pelo menos como a tinha antes, segundo aqueles parâmetros). Quando perdes algo (e digo mesmo perder no sentido de saberes que não mais recuperarás) a dor torna-se inatingível. Enquanto tiveres a noção (e aqui, novamente coloca-se a questão fuclcral de delimitar onde termina e começa a noção real de um ser humano) de que perdeste algo, MAS persistir a esperança de que poderás recuperar, então todos os dias, por mais cinzentos que sejam, poderão esconder uma bela novidade. Ou assim esperas…

    No entanto, se perdes algo, tal como essa pessoa perdeu, deitando para a fogueira tudo o que tinha como recordação, tudo aquilo que foi durante uns tempos e, ACIMA DE TUDO, tudo aquilo que queria ter sido, então a desgraça abate-se sobre ela. Pior do que perder aquilo que tens, é perder a esperança de vires a ter aquilo que sempre desejaste.

    Tal como referiste, ele não é feliz. Sim, tens toda a razão. E, após ter escrito isto tudo, acho que se impõe uma nova pergunta: Quererá ele, novamente, ser feliz? Não terá ele medo de que tudo não se torne num ciclo vicioso em que a felicidade esteja intimamente ligada a uma dor suturante? Afinal de contas, rejeitar toda a complexidade humana é tão mais fácil e parece ser tão mais tentador… Para tal, basta somente refugiar-se no âmago do seu ser e simplesmente não dirigir a palavra a quem quer que seja. (Isto, claro, excepcionando pequenos gritos de ajuda. Ocasionais com certeza.)

    «Hoje é o dia em que o esquece.»

    Não o esqueceu naquele dia. Acredita. Ou então não teria rasgado as fotografias porque essas já não teriam qualquer importância. Ser-lhe-iam indiferentes. Não o esqueceu, porque caso o tivesse feito, não se reria do quão patético ele se tornou. Antes, contudo, ser-lhe-ia totalmente indiferente. Afinal de contas, isso sim é esquecer uma pessoa: tornar-se puramente indiferente. E, sejamos realistas, ambos sabemos que ele ainda não se tornou isso…

    Talvez tenha sido, como tu bem referes, um humor passageiro. Talvez tenha sido mais uma emoção fingida. Talvez tenha sido mais uma dor camuflada de revolta estúpida e insensível. Ou então é talvez tudo isto que está errado.

    Mas, quem sou eu para comentar sobre vidas alheias?

    (perdoa-me a parvoíce da coisa, mas são quase 5 da manhã, não consigo adormecer, e estou deveras tocado pelo vinho.)

  3. Adriana Said:

    Não terá certamente esquecido. Senão, não precisaria de rasgar papeis e fotografias. Não terá sido antes um meio para impedir de lembrar o passado? Quantas noites como essas, já não teriam sido abordadas por pensamentos desses, talvez não tão definitvos, antes dessa noite? O passado não se manda para trás quando se quer, digo eu!

    AH, e André, os meus textos, para (in)felicidade de outrora, são sempre verdadeiros. Ou pelo menos, assim o pertendo. Quanto a este caso, até as virgulas foram reais.
    Bem hajas


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