Archive for April, 2008

Today

A toalha passa pelos seus olhos antes de ir para o seu cabelo. Esfrega-o com força a mais, o seu cabelo sempre foi forte mas após a lavagem fica sempre frágil. A toalha volta a passar pelos seus olhos. Acordou minutos antes, não dormiu muito mas dormirá nesta tarde. Quando o vulto laranja da toalha passa,  apercebe-se de que algo mudou. A certeza de tal facto começa a apoderar-se dele, espera antes de fazer qualquer coisa, quer certificar-se de que não é apenas um humor passageiro. Mais uma das suas vontades, mais um dos seus dramas, mais uma emoção fingida.
Hoje é o dia. Sabe-lo agora. Hoje é o dia em que toda uma existência deixa de ser espiralada para passar a ser recta. Hoje é o dia em que deixa tudo para trás, o bom e o mau. O passado e o presente. Hoje é o dia em que o esquece. Em que toda a dor que foi acumulando e acarinhando será aniquilada. Sabe-lo agora, após a toalha passar pelos seus olhos.
Continua o acto metódico de secar o cabelo, seca o corpo também e veste-se. Está pronto. Neste dia, de todos os dias, tão normal como todos os outros. Tão aborrecido como todos os outros. Tão fatal como qualquer outro. Hoje é o dia.
Rasga as cartas e deita-as para a fogueira. Com elas vão as fotografias. Ardem numa fogueira de fogo e dor. Ele não chora. Apenas olha para os vários papéis que ardem e pensa em tudo o que está a arder com eles. Hoje é o dia em que o deixa para trás.
Quando acaba, sente-se renovado. Não exactamente feliz. Ainda é cedo para isso. Mas sabe que hoje, neste dia de todos os dias, a possibilidade de ser feliz existe outra vez.

Nota: A ideia para este post não me veio como veio para os outros posts. Não foi num café, num autocarro, em casa ou antes de ir dormir. A inspiração veio-me no Bairro Alto às duas da manhã, com uma garrafa de traçado numa mão, um cigarro na outra, rodeado de algumas das melhores pessoas deste planeta (esta foi lamechas) e à frente de um bar gay. 

Carlos André da Palma Alves 

The Waves

Levanta-se, sem paciência para continuar naquela divisão e sem forças para fazer algo mais do que dormir. Ao andar para o seu quarto, não consegue deixar de reparar no silêncio que enche a casa. Pouca ou nenhuma luz passa pelas janelas e confia na memória mais do que confia na visão para chegar ao quarto e depois à cama.
Está calor, apenas se cobre com o lençol, está frio demais para estar sem ele e calor demais para qualquer coisa mais. O seu quarto está escuro e mal pode discernir qualquer forma. Com a cabeça na almofada, reza para que o cansaço (mental e físico) tome conta da sua mente e faça com que adormeça rapidamente.
As suas preçes não são atentidas. Por mais que tente, não consegue adormecer e sabe o que isso acarreta. Sem mais nada para fazer, começa a pensar em tudo o que se passou, em tudo o que foi dito, e mais importante, em tudo o que irá ser dito.
Os seus pensamentos começam a aumentar de intensidade, e também de gravidade. Sente o seus pensamentos como ondas, que embatem no seu ser com alguma força (não muita, mas cada onda com mais força do que a anterior) e que fazem com que mergulhe cada vez mais no turbilhão dos seus pensamentos.
Agarra o lençol com força, não se pode desmoronar, não pode ceder às lágrimas. Isso só pioraria os seus pensamentos e a forma como se sente.
“A culpa não é minha. Não fui eu que escolhi.”
Desaba finalmente. Soluça, treme e as lágrimas correm pela sua cara. As ondas estão agora enormes, caiem sobre si com força estrondosa, arrancando grandes pedaços de si e atirando-os para a areia molhada.
Ainda agarra o lençol, não para se impedir de chorar mas para manter o silêncio no seu quarto. Não quer que ninguém oiça os seus soluços.
Mexe-se ligeiramente e sente uma picada na perna, com a mão vai à procura do objecto, mesmo apesar de já saber o que é. Está escuro mas mesmo assim consegue vê-la perfeitamente. A faca está firme na sua mão, hesita durante momentos. Faz a sua decisão.

Carlos André da Palma Alves

Playing Hide and Seek / The Siege

“Onde estamos nós?” perguntou ele a si próprio enquanto dava um passo atrás do outro numa rua que já tinha percorrido centenas de vezes. No entanto, sabia que não era essa a pergunta importante a ser feita. Demorou-se um pouco, à procura da pergunta certa. ”Porque é que está tudo errado?”

Faz-me um favor, controla-te.
Talvez sejas tu que não vês, ou até vês mas ignoras. Esqueces, no entanto, que ao ignorares destróis um pouco mais daquilo que tu mesma ajudaste a construir. Uma vez disseste-me que não querias isso. A tua opinião mantém-se?
Faz-me um favor, vê.
É a terceira vez, talvez seja a última ou talvez não. Mas talvez um pouco de atenção ao futuro? Talvez uma precaução bem tomada? Garanto-te que não faria mal a ninguém.
Faz-me um favor, está calada.
Algumas palavras magoam e outras nem tanto, outras são inteligentes e outras idiotas. A tuas têm sido da pior categoria. Além de extremamente desnecessárias, são pautadas por uma qualquer raiva que não percebo e sinceramente, não quero perceber. Mas pergunto-me, o que raio tenho eu ou ele a ver com isso?
Faz-me um favor, cresce e muda.
Não manterás esta farsa durante muito tempo. Podes esconder o que quer que seja que escondes mas por mais que enterres um segredo, ele acaba sempre por vir à superfície.

Já se passaram quantos anos? Quantos dias de angústia e dor?Perdeu-lhes a conta, contava-os de início mas desistiu quando contou centenas. Eram simplesmente demasiados para lembrar, demasiados para armazenar. Há muito que estava preso dentro de si próprio. Em tempos conseguira ser feliz, em tempos tudo era normal e ninguém lhe pedia mais do que ele podia dar.
Mas tudo mudou. E agora era assaltado por forças superiores às suas defesas. Sabia que um dia teria de desistir. O que faria nesse dia? O que seria dele? Não sabia responder.

“Onde estamos nós?” perguntou ele a si próprio enquanto dava um passo atrás do outro numa rua que já tinha percorrido centenas de vezes. No entanto, sabia que não era essa a pergunta importante a ser feita. Demorou-se um pouco, à procura da pergunta certa. ”Porque é que está tudo errado?”
Decidido a não cair outra vez no vazio, virou-se para a pessoa que o acompanhava dizendo “Podemos ir para casa? Onde quer que isso seja.”

Carlos André da Palma Alves