Control

Ela está na mesa. Traz o seu vestido roxo que tanto tempo demorou a escolher na loja. O dinheiro não foi problema pois os seus pais são ricos. Sorri para as suas amigas. O momento está-se a aproximar e todas as suas esperanças estão depositadas nele. Passados alguns minutos uma voz pede silêncio. Fala sobre como o ano foi importante para todos. Como devem aproveitar momentos como este para se divertirem. E anuncia a Rainha. É ela, ganhou a votação. Sobe para o palco e e toda ela se desfaz em sorrisos. Ela está contente como nunca esteve.
Ele está no seu quarto. Com ele está o seu amigo, estão a fazer um trabalho de pares que está a correr bem. Há muito que sabe que o ama. E há muito que o esconde. A sua mãe traz-lhes o lanche, sumo e sandes. O seu amigo agradece, assim como ele. Ao comerem falam sobre os seus amigos, e de como seria bom combinarem um café juntos.
Dias depois isso acontece. Passam cerca de meia hora no café e depois andam pelas ruas mal iluminadas. É aí que tudo acontece. Nessa noite beijam-se pela primeira vez. Nessa noite começa o seu amor. Nessa noite, são felizes.
Ela tinha acabado de saber, tinha sido aceite na sua faculdade de eleição. No entanto não podia acreditar no que lia, mesmo apesar de nunca ter tido grandes dúvidas acerca da sua entrada. As suas notas eram as melhores da escola. Depressa estava a telefonar á sua melhor amiga. Iam as duas para a mesma faculdade e mal podiam esperar para que isso acontecesse. Os seus pais ofereceram-lhe uma viagem a Itália, o seu destino de sonho. Ela e a sua amiga vão nesse Verão. Visitam Roma, Milão, Nápoles e Veneza.
Foi a sua melhor amiga. Nunca tinha sido muito popular mas era divertida e todos os que a conheciam a adoravam. Tinha feito algumas escolhas erradas mas isso não a afectava muito. Foi ela que lhe deu a experimentar. Pensava que ela se daria bem, que não ficaria muito agarrada. Enganou-se.
Ela tentou esconder isso de todos mas era perfeitamente vísivel a quem prestasse atenção. A pouco e pouco ia caindo um pouco mais. A fugir a meio dos jantares para ir à casa de banho. A desculpar-se a meio das aulas. Começou a pedir mais e mais dinheiro aos seus pais que começaram a suspeitar e lhe tiraram a mesada e qualquer fonte de rendimento. Foi aí que se tornou desesperada. E tomou medidas desesperadas.
Porque o fez? Ele não o sabe. Não queria ficar de fora do círculo numa festa. O seu namorado não estava com ele. Se estivesse talvez as coisas tivessem ido de maneira diferente. Se ele estivesse, talvez ele pudesse ter ficado onde estava e não ter respondido aos apelos dos amigos. Mas respondeu. Minutos depois entrava num mundo inteiramente diferente.
A partir daí tudo se passou muito depressa. Os seus sonhos começaram a desmoronar-se. As suas relações seguiram o mesmo caminho. O que tinha ele? Nada. Nada excepto uma coisa. E quando apenas se tem uma coisa, usamo-la demasiado.
Ela gostava de dizer que estava arrependida. Mas não o pode fazer em boa consciência. Gosta daquilo, dá-lhe uma maneira de escapar aos estudos e a uma vida de stress que a sufoca.
Toda a sua vida agora corresponde ao que esperava mas é ao mesmo tempo menos do que queria. Não se sente realizada, não se sente feliz.

Decide fazer a única coisa que pode fazer. Vai para um parque muito conhecido na zona. Passa por um rapaz que está sentado num banco, ele não lhe liga. A sua primeira vez acontece ali perto. Volta para o seu contacto, paga e recebe.Passados alguns minutos está deitada no sofá, sorri ao olhar para o seu saco. É pequeno, não durará muito mas chega perfeitamente.

Ele está no banco outra vez. Está ali cada vez mais vezes por semana. Uma rapariga passa, é muito bonita mas igual a ele no seu objectivo ali. Sentado, vê os carros passarem com as suas luzes a iluminarem a sua face durante breves momentos. Um deles vira à esquerda e pára. Ele levanta-se.

Ela olha assustada para o que está prestes a fazer. Tem de prestar atenção ao que faz. Se puser demais morrerá. Passados alguns momentos dá-se por satisfeita. Horas depois jaz no chão, morta.

Carlos André da Palma Alves

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