Ways to escape. (To L)

As noites passam e eu aqui estou. As manhãs passam e eu aqui estou. As tardes passam e eu aqui estou. Os dias passam e eu aqui estou. Os meses passam e eu aqui estou. Os anos passam e eu aqui estou. A minha vida passa e eu aqui estou.
Deitado na cama espero por ele. Chegará em breve, nunca sei muito bem dizer quando. É imprevísivel, todos os dias é diferente.
Não posso fumar mais.
Mesmo apesar de ainda ter maços guardados, sei que não devo fumar mais. A cada cigarro que fumo o seu efeito calmante diminui um pouco, só um pouco.
Sabes, os primeiros dias da minha vida estão esquecidos. Grande parte da minha vida está esquecida. Mas mesmo apesar de me esquecer, lembro-me de quando te conheci. Da primeira vez em que apertámos as mãos.  Nunca me poderia esquecer disso. Há coisas que não se esquecem.
Não posso beber mais.
As garrafas de vinho tinto vão-se acumulando a meu lado, algumas ainda têm algumas gotas. Mas essas não interessam. Ainda estão pelo menos duas garrafas em cima da mesa de cabeçeira. Mas não as beberei. Pelo menos, não por agora.
Espero que também te lembres das coisas que me disseste naquela tarde quente de Verão. Das promessas de amor, amor esse que seria complicado. Que teria de atravessar vários obstáculos. E que atravessou. Lembro-me da tua t-shirt vermelha, do teu cabelo que estava a ficar grande. Lembro-me do sabor da tua boca nessa tarde. Sim, é disso que me lembro mais.
Não posso ler mais.
Acabei agora um livro. Como sempre, levantei-me e coloquei-o na estante. Dezenas, centenas deles estão lá arrumados. Li-os a todos. Mas passaram por mim como uma brisa matinal passa por uma flor. Abana-a na altura mas nada resta dela passados momentos. E ainda tenho alguns que queria ler. Mas não os lerei. Não vale a pena embrenhar-me neles para depois os esquecer.
O zénite chegou naquela manhã. Fizemos amor, foi óptimo, como sempre. Ficámos na cama, á espera que um de nós dissesse que tínhamos de sair. Eu não o fiz e tu também não. Adormeci nos teus braços, nunca me senti tão seguro como naquele momento. Nem tão amado. Também adormeceste abraçado a mim passados alguns minutos. Acordámos horas depois e rimo-nos. Nos nossos telemóveis amontoavam-se mensagens das pessoas que era suposto encontrarmos.
Não posso sonhar mais.
Apesar de não me lembrar de todos, sei que os tenho. A maioria são bons. Não. Todos são bons. Deixo-me levar para outros reinos. Para outros mundos. Para outras pessoas. Neles fujo desta realidade e crio outra. Apanho o comboio e sigo um rumo que se vai formando na minha cabeça com dois segundos de aviso. Acordo sobressaltado. Talvez esta realidade não seja a que eu quero. Mas a que sonhava também não me parecia melhor.
O problema da palavra zénite é que simboliza sempre o crescimento máximo de uma coisa. E a seguir a esse máximo segue-se sempre e irremediavelmente um declínio. Assim foi. Dias depois estávamos naquele banco. Dias depois estavas a dizer aquelas palavras. E dias depois estavas a voltar para tua casa sem um adeus. Dias depois eu ia para casa absolutamente abandonado. Vazio. Sem rumo. Dias depois eu acabava tudo. Sem saber muito bem porquê. Ainda hoje não sei.
Não posso fumar mais. Não posso beber mais. Não posso ler mais. Não posso sonhar mais. Mas, ainda assim, faço tudo isto uma e outra vez.

Carlos André da Palma Alves

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