A criança está no canto da sala. Vê pessoas muito maiores que ela nos seus afazeres. Não os compreende. Sem os compreender continua a brincar com o seu puzzle. Há muitas peças, todas deveriam ser colocadas na moldura para formar uma imagem. A criança assim faz, colocando cada peça no lugar que acha melhor e passados alguns momentos apenas resta uma peça.
É grande, talvez a maior das peças e ajusta-se no centro da moldura na perfeição. A criança percebe este facto e coloca-a no seu lugar. A imagem fica completa. A criança dá-se por feliz.
A criança muda de opinião. Olha para o puzzle e tudo lhe parece bem excepto aquela peça do meio. Decide tirá-la. Coloca outras peças de outros puzzles que remedeiam a imagem mas não a completam. Nunca estará bem assim. O puzzle fica completo mas extremamente incompleto. À criança não lhe interessam esses assuntos, portanto levanta-se e vai brincar para outro lado. E o puzzle ali fica, destroçado na sua solidão. Nunca estará completo a cem porcento. Viverá uma existencia vazia, acentuada pelo facto de um dia ter estado completo. E de ter perdido a peça mais importante.
Parecem tão antigos estes dias. Tão distantes. Já não interessa. Já nada interessa. Na cama tenta lembrar-se de tudo. Mas não consegue. Começa a tocar Mozart. Quem toca, não sabe. Mas sabe o que significa.
Carlos André da Palma Alves
'stracciatella Said:
on March 10, 2008 at 7:11 pm
A imagem do puzzle retrata na perfeição a ideia que (penso que) queres passar.
Será que posso acrescentar o teu link ao meu blog?
André Alves Said:
on March 10, 2008 at 8:03 pm
Sure! Adiciona como se não houvesse amanhã.