Estou no cais. Enquanto espero por um amigo, olho para o Tejo que está estendido à minha frente. A minha mala está a meu lado e por cima dela o maço. Está consideravelmente mais leve do que estava há uma hora.
Não sinto grande vontade mas mesmo assim tiro um cigarro. Não sei porque o faço, ou melhor, digo a mim mesmo que não sei mesmo apesar de a verdade me ser clara. Não me importo com a velocidade a que me mato, nem me importo com o sofrimento que eventualmente causarei.
É essa a essência, penso eu, eu simplesmente não me importo.
Sentado no autocarro, oiço música sem prestar atenção a nada. À minha frente está um rapaz. Sorriu-me quando se sentou. É giro, o seu cabelo loiro atrai-me assim como os seus olhos. De imediato começam a soar sinos na minha cabeça. “Não achas que já chega?” Dou atenção ao que penso durante uns momentos, de facto ando a abusar demasiado. Ou talvez não ande. Quantos foram nesta semana? Dois? Três?
E porque hei eu de me impedir? Por algum sentido de moral que me governa? Por alguma culpa que possa sentir?
De imediato escolho o caminho que vou seguir. De imediato elimino uma opção e começo a construir a outra.
Sorrio ao rapaz. Começamos a falar. O resto é fácil de adivinhar.
O vinho era doce quando meti um pouco no copo. Agora mal lhe sinto o sabor, ou se o sinto, é de uma maneira estranha que não a verdadeira. A garrafa está a meu lado, quase vazia. Não me sinto alegre, nem sinto a minha mente toldada pelo álcool. Era esse o meu objectivo quando a abri mas falhei. Em vez disso vejo mais claramente o que não quero ver. Em vez de cair num torpor idiota em que tudo é interessante e tudo mete piada, sinto cada vez mais a realidade a cair sobre mim.
Cansado e atormentado, vou ao armário da casa de banho onde sei que estão os calmantes. Tomo dois, mistura perigosa com o álcool acabado de tomar. Pouco depois tudo muda, tudo se torna simples e bom. Fico feliz e alegre. Mas sei que é algo que passará.
Sei que o caminho que ando a levar me leva a pouco e pouco à autodestruição. Sei que isso é mau. Sei que muita gente sofreria com isso. Que afectaria a vida a pelo menos seis pessoas. Outras sofreriam, claro mas saltariam sobre isso nuns meses. Gostaria ainda mais de dizer que me arrependo do que faço e que já sinto a culpa de todas as parvoíces que tenho planeadas para os próximos dias. Mas isso seria mentir.
Gostava também de dizer que não passou de mais um post de pura ficção adaptada ao que sinto, infelizmente isso não seria a verdade.
Carlos André da Palma Alves