És sem dúvida o dia. Um dia de Inverno, sem chuva nem nuvens, com um sol que pouco aquece mas um dia ainda assim. E o que os dias de Inverno têm de bom é o facto de nos podermos aqueçer com mais roupa. E a sensação de conforto é incomparável. Obviamente sou a noite. Novamente, uma noite de Inverno. Sem nuvens nem chuva e com uma lua cheia. Mais tarde dirão que éramos de mundos diferentes, com objectivos diferentes, visões diferentes, maneiras diferentes, sensibilidades diferentes. Eles saberão mais que eu, eu apenas sei o que me foi dado a conheçer e esse conhecimento não me deixa dizer nada sobre o futuro. Nada.
Não nos encontramos senão em pequenas coisas, pequenos detalhes, pequenos tempos. E no entanto, quero encontrar-me em mais. Quero ser mais. Quero mais.
És dia e sou noite. Gostavas de encontrar um dia e eu gostava de encontrar uma noite. Pela minha parte, já nem sei. Temo sentir qualquer coisa, temo querer qualquer coisa, temo gostar de qualquer coisa, temo temer. É a diferença que me afasta, que me abranda, que me diz não. Mas depois lembro-me do crepúsculo, lembro-me que nem tudo tem de ser dia ou noite, branco ou preto, isto ou aquilo. Lembro-me que até a noite e o dia se encontram, durante escassos momentos, mas encontram-se. Isto dá-me alegria e tristeza.
Quão grande seria o nosso crepúsculo? Quanto tempo demoraria até a noite se fartar do dia? Até o dia se fartar da noite? Quanto tempo duraria até um vil eclipse se intrometer entre o frágil e facilmente abalável equilíbrio entre a noite e o dia? E o que seria de mim depois? O que seria de ti depois? O que seria de nós depois?
Infelizmente, ao quando me lembro do crepúsculo, da dicotomia entre o dia e a noite, da diferença entre nós, lembro-me também de mais duas coisas: lembro-me amargamente de um dia, um dia em que atrasei todo um processo, um dia em que talvez tenha perdido uma hipótese. Lembro-me também de algumas recentes palavras tuas, como definiste a nossa relação. Dizer que doeu é dizer muito, e pouco.
Sendo orgulhoso da minha racionalidade e frieza perante tais assuntos, rio-me do quão criança me sinto, do quão impotente me sinto, e rio-me do medo que sinto. Passaria rápido? A desilusão e a dor? Será que sentiria alguma coisa? Não sei, e quero saber da mesma maneira que não quero saber. Sentirei realmente isto? Ou não passará do produto de uma mente demasiado ansiosa, que constrói cenários e possibilidades só porque pode?
Imagino-te a ler isto, sorrio, penso que vás dizer algo como será que é sobre mim? Será que percebi mal? E rio-me, rio-me a bom rir na conversa que inevitavelmente teremos sobre este texto. Por mim, não haveria qualquer conversa. Não há necessidade. Sei que apenas encontraria dor, portanto espero que essa conversa não me encontre.
De facto, temos uma relação peculiar, quase como se estivéssemos sempre a tentar empurrar o outro para longe, dizendo coisas que sabemos ser más, mas que somos impelidos a dizer e cada má resposta que me dás é sentida duas vezes, sinto a amargura nas palavras e sinto a doçura, sabendo que não poderia ser de outra maneira.
Ultimamente tem estado frio.
(Mesmo muito frio)
E não obstante os problemas que sempre aparecem,
Mais um pensa que será benvindo.
Mas não será.
(Mas talvez ele encontre compreensão)
Orgulho e tristeza.
Idiota e desnecessário orgulho.
(Como as decisões passadas são odiadas!)
Está mesmo muito frio.
E estou debaixo de lençóis que pouco aquecem.
(Talvez a tua imagem?)
Durmo.
Sem realmente chegar a dormir.
Metade de mim dorme.
E a outra metade vagueia.
(Ou será um sonho? Mais um)
Choro.
Não por tudo.
Não por este texto.
Nem por ti.
Nem por mim.
O motivo do meu chorar?
Para ti isto pode não ser nada.
Até pode passar-te ao lado.
Talvez sintas vontade de me confortar.
Aliviando a dor de dizer não, dizendo talvez se.
(Não o faças!)
O problema,
É que para ti não é nada.
Mas é tanto para mim…