Archive for May, 2007

The Stakeout

A chuva cai forte esta noite.
Devido a algum desígnio desconhecido do Homem.
O céu está negro esta noite.
Algo deve ter corrido mal.

Eles vegetam lá em cima.
Vendo e gravando o que não compreendem.
Apenas gravam e guardam.
Outros irão recolher e perceber.

Satélites estão a cair do céu.
Empurados pela chuva incessante.
Despedaçando-se contra a terra molhada.
Soltando as suas imagens ao cair.

Perdendo a sua sabedoria.
Sem ninguém para os agarrar.
Morrem acompanhados pelos seus irmãos cadentes.
Ouvindo os seus gemidos ao embaterem.

A chuva cai forte esta noite, vinda do céu negro.
Porquê?

The Bride

Esperou calmamente,
Debaixo de uma árvore.
Esposta ao vento e á chuva.
Ainda assim, esperou.

Sempre olhando o horizonte.
Olhando todas as manhãs.
Olhando com os olhos da esperança.
Apenas viu o sol e os barcos.

 Nunca o barco que esperava.
Nunca o homem que esperava.
Sentada numa rocha,
Ela esperava.

Até que a rocha se começou a unir a ela.
Já sabia quem ela era.
E a bela noiva,
Nunca casou.

Ela ainda espera.
Tornada estátua.
Talvez um dia ele chegue.
Talvez um dia ele a abraçe.

The No Man’s Land

Por entre vários tons de preto.
E por uma grande selecção de brancos.
Nem sempre tem de ser um ou outro.
Nem sempre um mundo de extremos.
Há sempre um lugar,
Onde o branco e o preto se misturam.

Gostava de saber onde estás.
Se no limite do preto.
No branco mais brilhante.
Ou se como eu,
Escolheste o cinzento como morada.
O cinzento é bom.

Perdido que estás,
Da minha vista.
Vejo-te por vezes, num mundo cinzento.
Um cinzento de trovoada,
De céu nublado.
De nevoeiro.

Não queiras viver um cinzento imposto,
Por medo, culpa ou dúvida.
Nunca conseguirás viver a totalidade da palete de cinzentos.
Nunca conseguirás aproveitar,
A imensa capacidade de escolha que te foi dada.
E acima de tudo, não serás feliz.

Porque no fim,
Trata-se de escolher o cinzento mais próprio.
O que está mais carregado ou o que está mais leve.

The Sails

E andaríamos na areia.
Sentido cada grão.
Cada onda,
Um turbilhão de emoções.
Que gentilmente afaga a areia.
E ficaríamos sentados,
Num silêncio que muito revelaria.

Veríamos os navios,
Com as suas velas brancas.
Com o pôr do sol como pano de fundo.
E talvez pudéssemos ouvir as gaivotas…
Cantando a sua alegria.
Por nós.
Só por nós.

The Grey Colour

A areia esvai-se por entre os dedos.
E os copos caiem sempre.
Sempre puxados para baixo.
Sempre… perdidos.

Não me sinto feliz aqui.
Aqui apenas desespero.
Num desespero silencioso.
Um silêncio de morte.

Não consigo.
Não consigo enfrentar o longo teste do tempo.
Este sítio leva-me á insanidade.
Se aqui ficar morro.

E ainda bem.
Ficar ou morrer.
Morrer.
É sufocante.

O tempo estará sempre presente.
Sempre.
Demasiado presente.
E demasiado calmo.

The Wear Out

Cansei-me tão facilmente.
Talvez porque canse facilmente.
Sempre a aguentar tudo o que me manda.
E ninguém é invulnerável.
Parece ter sido feita para desgastar.
Para ferir.

Não que eu não goste dela.
Eu gosto e muito.
Só que estou tão cansado.
E o tempo anda cada vez mais lento.
Mas ás vezes pergunto-me.
Como seria desistir?

The Heartbreak

Ele pensou que seria um dia monótono.
Marcado e agendado pela já memorizada rotina.
Não passaria de mais um dia nos subúrbios.
E o dia começou como todos os outros dias.
Mas a rotina e os planos mudam.

Porquê? Ele não queria isto. Ele temia isto.
Não percebe o que se passa nem o que se passou.
Atordoado por tantos acontecimentos,
Fechou os olhos para rever as imagens que voavam na sua cabeça.
Viu muito passado, viu pouco presente, não viu futuro.

Recordou os momentos todos.
Numa amálgama de nostalgia que não parava de crescer.
Arrancado de volta á realidade,
Viu o seu mundo muito diferente do que se recordava.
Espaços em branco, ainda marcados pelo pó em que estavam assentes.

Cambaleou, estonteado com a força do que se passava.
Sentiu as pernas a tremer. Sabia que não aguentaria.
E o seu mundo foi despojado do conhecido.
Pensou no que perdeu, o tempo desperdiçado.
E olhou para o seu mundo.

Sentiu uma mão a esmagar o seu coração.
E doeu.
Espremeu-lhe a alegria deixando o vazio negro da tristeza.
E o frio toque da solidão.
Murmurando-lhe incessantemente o seu nome.

Sentiu-se sozinho como nunca antes.
Não a tinha a seu lado e não sabia lidar com isso.
Sabia que alguém a tinha a seu lado.
Olhou para as molduras partidas no chão.
Dolorosas em cada aspecto.

Ele andava pela rua.
Ninguém olhava para ele.
Como? Ele aparentava tristeza.
Como é que ninguém notava e o tentava confortar?
E ele sofria tanto.

O dia começou como todos os outros dias.
Mas a rotina e os planos mudam.
Descansa, sofre, pensa, revê, chora.
Mas tu simplesmente não podes impedir o que não conseguiste prever.

The Melodrama

É tarefa complicada para pessoas menores.
E pessoas menores não alcançam feitos maiores.
Menores em pensamento, maneira de agir, menores em personalidade.
Remetidos para as tarefas básicas, para as reacções básicas, para as emoções básicas.
É realmente, tarefa complicada para pessoas menores.

Vai mais além delas.
Mais do que podem conceber.
Mais do que conseguem fazer.

Portanto não é de admirar, que quando chegue a relações,
A mente primitiva actue de maneira primitiva.
Nem é de admirar nem de condenar.
Apenas é de ter pena.
Deus, perdoai-lhes, pois não sabem o que dizem.

É tarefa complicada para pessoas menores.
Simplesmente deixar ir, deixar andar.
Não conseguem, mentes básicas e reduzidas.
Acabou alguma coisa. ACABOU.
Para quê arranjar qualquer pretexto para tentar magoar, ferir, picar.
Apenas prova que realmente signifiquei muito.

Pára com todo o teu melodrama.
Com as tuas tentativas patéticas.
Pára de provares que me odeias.

Podes desistir e largar-me, por favor?
Podes passar á frente?
Podes acabar de uma vez por todas com esta novela mexicana?
Que começa a cansar de tão básico o seu enredo.
É tarefa complicada para pessoas menores.
Eu sei.

The Forbidden Fruit

Não falemos de tais coisas.
Quem sabe o que nos pode acontecer?
Pode ser que Ele nos castigue pela nossa audácia.
Afinal, Ele é Deus, pode tudo e mais qualquer coisa.
Não falemos de tais coisas, mesmo.

Deus de castigo e Deus do proibido.
Demónio do amor e Demónio do fácil.
Deus no céu e Demónio na Terra?
Ele não desce porque disse que nos deixava sozinhos.
Quem não o compreende não subirá aos céus.

Que pena, logo eu que queria ser tão feliz lá por cima.
Será que serei feliz lá em baixo?

Não! Não podes abandonar o que acreditas!
Bem, eu nunca gostei muito de Lutero.
Nem de Calvino.
Sim, mas eles tiveram sucesso.
Pois foi.
Será que estás aí?
Satanás?
Olha se estiveres dá-me mais um bocado do que eu preciso.
Eu dou sempre meu irmão, meu filho.
Eu sei, eu sei que tu existes.

Gosto tanto de ti.
Olha já volto, vou só praticar um bocado de maldade.
Assim ficas contente não é?
Seu eu fizer o bem subo ao céu?
Não.
Em alguma altura da tua vida tu pecaste.
E não te arrependeste.

Fiz o bem, como me exigiste.
Mas eras rico.
Aquele que é rico não entrará no céu.
Ora, ora.
Vai-te foder.
No Inferno estão os ricos.
Satanás sabe compensá-los.
Ele sabe sempre.