Ao acordar, ele mal vê o que está a fazer. Vai à casa de banho e à cozinha mas não se lembra de lá ter ido, tem apenas uma vaga ideia do que fez mas certifica-se que o fez realmente. Veste-se com a calma do costume, escolhendo a roupa que acha melhor para aquele dia. É quando vai ao espelho que tudo acontece. Evita olhar os seus próprios olhos, tem medo do que pode ver neles. Medo das consequências. Medo por si próprio.
Lava a cara com desconforto, quando finalmente acaba, está triste e vazio. Mesmo assim, sai de casa e vai ao café onde a sua namorada o espera. Deus, como ela é linda. Ele gosta dela, sabe-o mas sabe ao mesmo tempo que nunca poderão ser verdadeiramente felizes, ela nada sabe acerca dos seus demónios.
Estão no aeroporto. Ele vai-se embora durante duas semanas, ele voltará mas ele sentirá sempre a falta dele. Quando chega a altura de embarcar, ele desafia-o a beijá-lo ali, no meio de toda aquela gente. Ele hesita, tem medo do que todos os outros pensarão. Após equacionar se o faz, beija-o. Muitas pessoas ficam a olhar horrorizadas, muitas esboçam um sorriso, a maioria desvia o olhar.
Ela esteve a jantar até agora, já é tarde mas ela sente-se verdadeiramente feliz. A noite de todas as noites correu melhor do que estava à espera. Muito melhor. Os pais dela eram fantásticos pensou ela enquanto descia as escadas, ela era fantástica. Sabia que estariam juntas -não para sempre -durante muito tempo, e sabia que seria absurdamente feliz durante esse tempo. Tinha-o sido até agora, feliz como nunca tinha sido com os seus namorados, afinal bastara dar o primeiro passo e libertar-se das estúpidas correntes que ela tinha aceite.
Ao sair, andou um bocado em direcção a sua casa. Esbarrou com três rapazes da sua idade, conhecia-os. Os boatos tinham começado a espalhar-se semanas antes. Movidos talvez pela bebida ou mesmo pela sua própria estupidez, eles disseram “vamos ver se conseguimos mudar a tua opinião.”
Sentia a necessidade há muito tempo, sempre a tentara combater dizendo que nada de bom viria daí. Mesmo assim, aqui estava ele sentado. Eles olhavam-no, ainda incrédulos e ele conseguia ver os seus cérebros a funcionar, a tentar chegar a uma conclusão. Não os apressaria, esperaria por qualquer sinal.
Passados momentos, ambos falaram durante algum tempo. Estava tudo bem.
A culpa é a primeira coisa que nos aparece. Talvez a confusão venha primeiro mas mesmo essa advém sempre da culpa. Julgamo-nos culpados de algo que não compreendemos e, dependendo da idade, não podemos compreender. A partir daí há duas opções: aceitamos o facto e fazemos a nossa vida da forma mais normal que conseguirmos. Ou então escondemo-nos e vivemos uma vida de mentira e (des)ilusão.
Seria mais fácil se o mundo fosse diferente, se o mundo fosse melhor não haveria todo o drama que ainda há à volta da questão. Talvez daqui a uns anos…
Thank god for ceilings
These walls are keeping
All of my dreams
Ceilings – Silence 4
Carlos André da Palma Alves