É fugaz amor,tão fugaz…

Quase como se pudesse mudar alguma coisa com este acto, ele muda a chávena de café uns centímetros para a esquerda.
Agora parece-lhe bem, agora há ordem.
E por vezes, basta uma ligeira mudança para que haja ordem. Ou a ilusão da ordem.
Não existe ordem, não pode existir.
Olha para a sala de jantar e está perfeita aos seus olhos.
Ele é a única coisa que está fora do lugar.
É a única coisa que devia ser mudada.
Mas continua sentado, à espera.
Tocam à porta. Sabe que é ele.
Deve ignorar a campainha ou deve abrir-lhe a porta?
Se ao menos ele pudesse prever o futuro!
Não pode e portanto debate-se.
Que será do seu futuro?
Se abrir a porta e o deixar entrar, o cenário A acontecerá.
Se não abrir, se o ignorar, o cenário B será o seu futuro.
Mas qual é o cenário A e qual é o B? Qual é o bom e qual é o mau?
Algo tão simples como abrir ou não uma porta pode mudar uma vida.

Diz-me que nos separaremos docemente, tal como nos conhecemos.
Diz-me que sou o mais importante para ti.
Que sou o teu melhor amigo.
Mas não me digas que o futuro não é feito por mim.

Champanhe e cigarros

Vários dias se passaram, sabes isso tão bem quanto eu.
E muito se perdeu nesses dias, talvez não consigamos recuperar nem metade.
O ano acaba e daqui a pouco começará um outro ano, carregado de esperanças, como é característico.
Mas isso não me interessa.
O 8 pode mudar para 9, não mudará nada.
Interessa-me, sim, saber como acabaremos o ano e como o começaremos.
Dizes-me?
Não.
Ora, bebamos então um copo de champanhe, fumemos o último cigarro do ano.
Também me podes beijar.
Não sei o que somos. O que estamos a construir.
Não sei se deva aceitar um beijo vindo de ti.
Pelo menos um novo ano está a começar.
Olha o fogo de artifício no céu.

Definitions

Não precisas de mim tanto quanto pensas.
Ele vai para o seu quarto à procura do que tem em mente, passa os dedos pelos livros da estante e sente os momentos que passou com eles, as incontáveis horas que os teve nas mãos; as emoções que sentiu ao ler as histórias de cada personagem.
Mas não procura histórias, procura definições. Encontra o dicionário mais longe do que estava à espera. Apercebe-se da razão de estar tão distante dos outros livros, uma definição não é o mesmo que uma história, é mais restrictiva, mais limitadora mas mais conclusiva. Nas definições não há lugar para interpretações.
Tira o dicionário do lugar onde está e leva-o para o sofá, procura a letra que começa a palavra que quer e passados alguns momentos de ligeira confusão encontra-a.
Há um sentimento de iluminação, de escuridão que é subitamente esclarecida por algumas linhas de texto. É então isto que significa, é então isto que sente…
Não precisas de mim tanto quanto pensas.
Os seus olhos estão sonhadores, fixados no nada e no vazio. Pensa em tudo o que se passou nos últimos dias e no modo como tudo poderia ter sido diferente se soubesse aquelas linhas de que acabou de ler. Como algumas palavras poderiam ter impedido tantos acontecimentos. As palavras podem significar tudo ou nada, depende de quem as ler, da sua capacidade de as compreender. Palavras podem mudar uma existência, justificá-la ou anulá-la.
 Não precisas de mim tanto quanto pensas.
 Ele levanta-se e devolve o dicionário ao seu lugar. De imediato se apercebe de tudo o que mudou, de tudo o que vai mudar apenas com uma definição. Pega no telemóvel e escreve as conclusões a que chegou, é uma mensagem longa, cheia de sentido e muito baseada na definição que leu. “Mensagem enviada.”
Não precisas de mim tanto quanto pensas.

Carlos André da Palma Alves 

“Because while the truncheon may be used in lieu of conversation, words will always retain their power. Words offer the means to meaning, and for those who will listen, the enunciation of truth.”

V For Vendetta

Pretending

O restaurante está cheio, várias pessoas estão sentadas em mesas para dois. Uns estão a olhar para as paredes, em busca de algo interessante, uma vez que não encontram nada nas pessoas com quem se sentam.
Outros falam com a companhia que têm, ou fingem que estão interessadas e que a conversa é boa ou realmente sentem que estão ali bem, que há significado no que dizem; no que pensam; no que sentem.
A zona de fumadores está igualmente cheia, duas pessoas sentadas numa mesa destacam-se das restantes. São absolutamente iguais a todas as outras. Um homem e uma mulher estão a ver o empregado a colocar a comida na mesa. Lulas recheadas, foi a mulher que escolheu a refeição, ciente do seu poder de escolha.
O homem olha para o prato posto à sua frente e esconde o seu desprezo e nojo, sorrindo para a mulher à sua frente.
Pega no garfo e mete um pouco do conteúdo do prato na boca, engole-o tentando não sentir o sabor. Neste momento sente apenas nojo.
Um maço de tabaco está em cima da mesa, o homem olha para ele num acesso de desespero. Precisa de se ocupar, precisa de algo que o abstraia do restaurante; da pessoa à sua frente; das outras pessoas no restaurante, tão desesperadas por encontrar algo que nunca encontrarão.
Abre o maço e tira um cigarro, ainda está cheio, foi comprado recentemente e ainda possui o brilho e toque característicos de um maço novo. Acende o cigarro e inspira com prazer e algum alívio. Sente também culpa, sabe que a mulher despreza o fumo e sente já o olhar crítico dela, pensando no quando odeia que ele faça isso.
Ignora-a, sentido mais uma vez o acesso de ódio vindo de alguma parte do seu ser que lhe é desconhecida. Não se interessa pelo facto de não saber porque a odeia, sabe que a odeia, é suficiente.
O fumo do cigarro condensa-se junto das luzes acima da mesa, o homem observa-o enquanto engole mais comida, cada vez que o faz sente o mesmo desdenho que sentiu da primeira vez que a meteu na boca.
O homem dá por si a pensar na razão de ali estar, num sítio que não gosta, com uma pessoa que não gosta e a comer coisas que não gosta. Não encontra a razão, sente apenas a necessidade de estar com alguém, de se sentir amado, mesmo que o amor não seja recíproco.
Até a atracção que o mundo lhe diz para sentir lhe é totalmente estranha e longínqua. Abstrai-se da corrente de pensamentos da sua cabeça, continua a comer e a fumar. Fala com amulher, ela pensa que o único defeito dele é fumar. Tudo o resto nele é fabuloso, até o sexo feito com amor e sentimento como ela nunca tinha feito antes. Não está ciente de que cada uma dessas sessões de sexo é um suplício para o homem, que se esforça ao máximo para se excitar, sentido apenas o mais leve indício de prazer.
Ouvem-se vários gritos de desapontamento, há um jogo de futebol a passar nas várias televisões espalhadas pelo restaurante. Ao homem não interessam os jogos de futebol, meros meios de fuga de uma realidade que é demasiado agreste para ser enfrentada. Meter-se em frente a uma televisão e ansiar por golos e victórias é mais fácil do que lutar.
O homem grita quando uma das equipas marca golo, o seu grito sendo abafado pela multidão que grita com ele. Dá por si a pensar no que acabou de fazer, é realmente mais fácil festejar. Senta-se com um sorriso na cara.

Carlos André da Palma Alves 

Today

A toalha passa pelos seus olhos antes de ir para o seu cabelo. Esfrega-o com força a mais, o seu cabelo sempre foi forte mas após a lavagem fica sempre frágil. A toalha volta a passar pelos seus olhos. Acordou minutos antes, não dormiu muito mas dormirá nesta tarde. Quando o vulto laranja da toalha passa,  apercebe-se de que algo mudou. A certeza de tal facto começa a apoderar-se dele, espera antes de fazer qualquer coisa, quer certificar-se de que não é apenas um humor passageiro. Mais uma das suas vontades, mais um dos seus dramas, mais uma emoção fingida.
Hoje é o dia. Sabe-lo agora. Hoje é o dia em que toda uma existência deixa de ser espiralada para passar a ser recta. Hoje é o dia em que deixa tudo para trás, o bom e o mau. O passado e o presente. Hoje é o dia em que o esquece. Em que toda a dor que foi acumulando e acarinhando será aniquilada. Sabe-lo agora, após a toalha passar pelos seus olhos.
Continua o acto metódico de secar o cabelo, seca o corpo também e veste-se. Está pronto. Neste dia, de todos os dias, tão normal como todos os outros. Tão aborrecido como todos os outros. Tão fatal como qualquer outro. Hoje é o dia.
Rasga as cartas e deita-as para a fogueira. Com elas vão as fotografias. Ardem numa fogueira de fogo e dor. Ele não chora. Apenas olha para os vários papéis que ardem e pensa em tudo o que está a arder com eles. Hoje é o dia em que o deixa para trás.
Quando acaba, sente-se renovado. Não exactamente feliz. Ainda é cedo para isso. Mas sabe que hoje, neste dia de todos os dias, a possibilidade de ser feliz existe outra vez.

Nota: A ideia para este post não me veio como veio para os outros posts. Não foi num café, num autocarro, em casa ou antes de ir dormir. A inspiração veio-me no Bairro Alto às duas da manhã, com uma garrafa de traçado numa mão, um cigarro na outra, rodeado de algumas das melhores pessoas deste planeta (esta foi lamechas) e à frente de um bar gay. 

Carlos André da Palma Alves 

The Waves

Levanta-se, sem paciência para continuar naquela divisão e sem forças para fazer algo mais do que dormir. Ao andar para o seu quarto, não consegue deixar de reparar no silêncio que enche a casa. Pouca ou nenhuma luz passa pelas janelas e confia na memória mais do que confia na visão para chegar ao quarto e depois à cama.
Está calor, apenas se cobre com o lençol, está frio demais para estar sem ele e calor demais para qualquer coisa mais. O seu quarto está escuro e mal pode discernir qualquer forma. Com a cabeça na almofada, reza para que o cansaço (mental e físico) tome conta da sua mente e faça com que adormeça rapidamente.
As suas preçes não são atentidas. Por mais que tente, não consegue adormecer e sabe o que isso acarreta. Sem mais nada para fazer, começa a pensar em tudo o que se passou, em tudo o que foi dito, e mais importante, em tudo o que irá ser dito.
Os seus pensamentos começam a aumentar de intensidade, e também de gravidade. Sente o seus pensamentos como ondas, que embatem no seu ser com alguma força (não muita, mas cada onda com mais força do que a anterior) e que fazem com que mergulhe cada vez mais no turbilhão dos seus pensamentos.
Agarra o lençol com força, não se pode desmoronar, não pode ceder às lágrimas. Isso só pioraria os seus pensamentos e a forma como se sente.
“A culpa não é minha. Não fui eu que escolhi.”
Desaba finalmente. Soluça, treme e as lágrimas correm pela sua cara. As ondas estão agora enormes, caiem sobre si com força estrondosa, arrancando grandes pedaços de si e atirando-os para a areia molhada.
Ainda agarra o lençol, não para se impedir de chorar mas para manter o silêncio no seu quarto. Não quer que ninguém oiça os seus soluços.
Mexe-se ligeiramente e sente uma picada na perna, com a mão vai à procura do objecto, mesmo apesar de já saber o que é. Está escuro mas mesmo assim consegue vê-la perfeitamente. A faca está firme na sua mão, hesita durante momentos. Faz a sua decisão.

Carlos André da Palma Alves

Playing Hide and Seek / The Siege

“Onde estamos nós?” perguntou ele a si próprio enquanto dava um passo atrás do outro numa rua que já tinha percorrido centenas de vezes. No entanto, sabia que não era essa a pergunta importante a ser feita. Demorou-se um pouco, à procura da pergunta certa. ”Porque é que está tudo errado?”

Faz-me um favor, controla-te.
Talvez sejas tu que não vês, ou até vês mas ignoras. Esqueces, no entanto, que ao ignorares destróis um pouco mais daquilo que tu mesma ajudaste a construir. Uma vez disseste-me que não querias isso. A tua opinião mantém-se?
Faz-me um favor, vê.
É a terceira vez, talvez seja a última ou talvez não. Mas talvez um pouco de atenção ao futuro? Talvez uma precaução bem tomada? Garanto-te que não faria mal a ninguém.
Faz-me um favor, está calada.
Algumas palavras magoam e outras nem tanto, outras são inteligentes e outras idiotas. A tuas têm sido da pior categoria. Além de extremamente desnecessárias, são pautadas por uma qualquer raiva que não percebo e sinceramente, não quero perceber. Mas pergunto-me, o que raio tenho eu ou ele a ver com isso?
Faz-me um favor, cresce e muda.
Não manterás esta farsa durante muito tempo. Podes esconder o que quer que seja que escondes mas por mais que enterres um segredo, ele acaba sempre por vir à superfície.

Já se passaram quantos anos? Quantos dias de angústia e dor?Perdeu-lhes a conta, contava-os de início mas desistiu quando contou centenas. Eram simplesmente demasiados para lembrar, demasiados para armazenar. Há muito que estava preso dentro de si próprio. Em tempos conseguira ser feliz, em tempos tudo era normal e ninguém lhe pedia mais do que ele podia dar.
Mas tudo mudou. E agora era assaltado por forças superiores às suas defesas. Sabia que um dia teria de desistir. O que faria nesse dia? O que seria dele? Não sabia responder.

“Onde estamos nós?” perguntou ele a si próprio enquanto dava um passo atrás do outro numa rua que já tinha percorrido centenas de vezes. No entanto, sabia que não era essa a pergunta importante a ser feita. Demorou-se um pouco, à procura da pergunta certa. ”Porque é que está tudo errado?”
Decidido a não cair outra vez no vazio, virou-se para a pessoa que o acompanhava dizendo “Podemos ir para casa? Onde quer que isso seja.”

Carlos André da Palma Alves

Spiral

Estou no cais. Enquanto espero por um amigo, olho para o Tejo que está estendido à minha frente. A minha mala está a meu lado e por cima dela o maço. Está consideravelmente mais leve do que estava há uma hora.
Não sinto grande vontade mas mesmo assim tiro um cigarro. Não sei porque o faço, ou melhor, digo a mim mesmo que não sei mesmo apesar de a verdade me ser clara. Não me importo com a velocidade a que me mato, nem me importo com o sofrimento que eventualmente causarei.
É essa a essência, penso eu, eu simplesmente não me importo.
Sentado no autocarro, oiço música sem prestar atenção a nada. À minha frente está um rapaz. Sorriu-me quando se sentou. É giro, o seu cabelo loiro atrai-me assim como os seus olhos. De imediato começam a soar sinos na minha cabeça. “Não achas que já chega?” Dou atenção ao que penso durante uns momentos, de facto ando a abusar demasiado. Ou talvez não ande. Quantos foram nesta semana? Dois? Três?
E porque hei eu de me impedir? Por algum sentido de moral que me governa? Por alguma culpa que possa sentir?
De imediato escolho o caminho que vou seguir. De imediato elimino uma opção e começo a construir a outra.
Sorrio ao rapaz. Começamos a falar. O resto é fácil de adivinhar.
O vinho era doce quando meti um pouco no copo. Agora mal lhe sinto o sabor, ou se o sinto, é de uma maneira estranha que não a verdadeira. A garrafa está a meu lado, quase vazia. Não me sinto alegre, nem sinto a minha mente toldada pelo álcool. Era esse o meu objectivo quando a abri mas falhei. Em vez disso vejo mais claramente o que não quero ver. Em vez de cair num torpor idiota em que tudo é interessante e tudo mete piada, sinto cada vez mais a realidade a cair sobre mim.
Cansado e atormentado, vou ao armário da casa de banho onde sei que estão os calmantes. Tomo dois, mistura perigosa com o álcool acabado de tomar. Pouco depois tudo muda, tudo se torna simples e bom. Fico feliz e alegre. Mas sei que é algo que passará.
Sei que o caminho que ando a levar me leva a pouco e pouco à autodestruição. Sei que isso é mau. Sei que muita gente sofreria com isso. Que afectaria a vida a pelo menos seis pessoas. Outras sofreriam, claro mas saltariam sobre isso nuns meses. Gostaria ainda mais de dizer que me arrependo do que faço e que já sinto a culpa de todas as parvoíces que tenho planeadas para os próximos dias. Mas isso seria mentir.
Gostava também de dizer que não passou de mais um post de pura ficção adaptada ao que sinto, infelizmente isso não seria a verdade.

Carlos André da Palma Alves

The Other Side

Num certo filme que idolatro, um rapaz diz a determinada altura: “It’s only love. What’s everyone so scared of?”
Que excelente pergunta à qual ainda não sei responder.

(Podia escrever um texto de 400 palavras a dizer o quanto me revolta, o quanto queria um mundo melhor, o quanto isto ou aquilo. Mas está bom assim, simples.)

Carlos André da Palma Alves

Protected: Now you know. (To A)

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The 804

Carrego no acelerador, a paisagem passa por mim, não mais do que um borrão indistinto. Árvores, casas, muros, tudo passa sem deixar a mínima impressão. Quero voltar lá, todos os segundos que passo afastado do quarto são segundos inúteis, sem qualquer sentido ou razão.
Quando finalmente chego, ele ali está mas sem o sorriso do costume.
Desta vez posso prestar atenção ao que rodeia a estrada, vejo as casas de dois andares, vejo as enormes árvores verdes que salpicam a região, vejo crianças a brincar, vejo tudo. Ando devagar, não tenho pressa em chegar. Subo o elevador, a música de fundo é irritante e gostava que não estivesse ali. No corredor, caminho para a porta que vi centenas de vezes. Nela está o número do quarto, 804, quantas vezes estive ali? E quantas vezes estive ali sem ele?
Sentado na cama, espero por ele. Está atrasado, talvez venha, talvez não. Ando um pouco pelo quarto, já sei onde tudo está, já sei cada detalhe de cada objecto. Finalmente, ele chega. É parecido mas nunca o alcançará.Tudo acontece sem amor, mas é bom. Vai-se embora. Penso no que estou a fazer, no que me tornei. A verdade é que não consigo chegar a nenhuma conclusão. Há apenas um vazio silencioso.

I’m unclean, a libertine
And every time you vent your spleen,
I seem to lose the power of speech,
You’re slipping slowly from my reach.
You grow me like an evergreen,
You’ve never see the lonely me at all
I…
Take the plan, spin it sideways.
I…
Fall.
Without you, I’m nothing.
Without you, I’m nothing.
Without you, I’m nothing.
Take the plan, spin it sideways.
Without you, I’m nothing at all

Without You I’m Nothing – Placebo & David Bowie

“Sans toi, les émotions d’aujourd’hui ne seraient que la peau morte des émotions d’autrefois.” – Le Fabuleux Destin d’Amélie Poulain

Carlos André da Palma Alves

Liberation

Ao acordar, ele mal vê o que está a fazer. Vai à casa de banho e à cozinha mas não se lembra de lá ter ido, tem apenas uma vaga ideia do que fez mas certifica-se que o fez realmente. Veste-se com a calma do costume, escolhendo a roupa que acha melhor para aquele dia. É quando vai ao espelho que tudo acontece. Evita olhar os seus próprios olhos, tem medo do que pode ver neles. Medo das consequências. Medo por si próprio.
Lava a cara com desconforto, quando finalmente acaba, está triste e vazio. Mesmo assim, sai de casa e vai ao café onde a sua namorada o espera. Deus, como ela é linda. Ele gosta dela, sabe-o mas sabe ao mesmo tempo que nunca poderão ser verdadeiramente felizes, ela nada sabe acerca dos seus demónios.

Estão no aeroporto. Ele vai-se embora durante duas semanas, ele voltará mas ele sentirá sempre a falta dele. Quando chega a altura de embarcar, ele desafia-o a beijá-lo ali, no meio de toda aquela gente. Ele hesita, tem medo do que todos os outros pensarão. Após equacionar se o faz, beija-o. Muitas pessoas ficam a olhar horrorizadas, muitas esboçam um sorriso, a maioria desvia o olhar.

Ela esteve a jantar até agora, já é tarde mas ela sente-se verdadeiramente feliz. A noite de todas as noites correu melhor do que estava à espera. Muito melhor. Os pais dela eram fantásticos pensou ela enquanto descia as escadas, ela era fantástica. Sabia que estariam juntas -não para sempre -durante muito tempo, e sabia que seria absurdamente feliz durante esse tempo. Tinha-o sido até agora, feliz como nunca tinha sido com os seus namorados, afinal bastara dar o primeiro passo e libertar-se das estúpidas correntes que ela tinha aceite.
Ao sair, andou um bocado em direcção a sua casa. Esbarrou com três rapazes da sua idade, conhecia-os. Os boatos tinham começado a espalhar-se semanas antes. Movidos talvez pela bebida ou mesmo pela sua própria estupidez, eles disseram “vamos ver se conseguimos mudar a tua opinião.”

Sentia a necessidade há muito tempo, sempre a tentara combater dizendo que nada de bom viria daí. Mesmo assim, aqui estava ele sentado. Eles olhavam-no, ainda incrédulos e ele conseguia ver os seus cérebros a funcionar, a tentar chegar a uma conclusão. Não os apressaria, esperaria por qualquer sinal.
Passados momentos, ambos falaram durante algum tempo. Estava tudo bem.

A culpa é a primeira coisa que nos aparece. Talvez a confusão venha primeiro mas mesmo essa advém sempre da culpa. Julgamo-nos culpados de algo que não compreendemos e, dependendo da idade, não podemos compreender. A partir daí há duas opções: aceitamos o facto e fazemos a nossa vida da forma mais normal que conseguirmos. Ou então escondemo-nos e vivemos uma vida de mentira e (des)ilusão.
Seria mais fácil se o mundo fosse diferente, se o mundo fosse melhor não haveria todo o drama que ainda há à volta da questão. Talvez daqui a uns anos…

Thank god for ceilings
These walls are keeping
All of my dreams

Ceilings – Silence 4

Carlos André da Palma Alves

Sense and Sensibility

Num restaurante ele bebe o vinho de forma calma, não faz gestos rápidos ou violentos, nunca os fez. Ela está sentada à sua frente e o seu olhar é tenso. Sabe que caminham para o fim. As coisas sempre estiveram bem. Sempre foram felizes e a relação sempre foi boa para os dois. Até um dia em que numa discussão feroz ele lhe bateu.
Ela não o aceitou, dias depois metia os papéis para o divórcio e acabava o casamento com uma assinatura. Ele tinha noção do que fez, embora soubesse que a violência tinha sido fruto de toda a discussão e do dia que estava a ter. Mas isso não o desculpava. Ele apenas queria que ela percebesse que não o queria ter feito. Rezava para que o tempo voltasse atrás.

Ele já não sabia o que fazer. Desde há muito que as coisas iam piorando de dia para dia. Tinha havido vários problemas, é certo, mas sempre tinham conseguido dar a volta por cima. Até chegar aquele dia.
Tinha sido algo simples, sem qualquer intenção, mas é por isso que tudo de mal acontecia pensava ele. Ao ver a sua reacção não se importou, mas apenas soube da dimensão do problema quando não a viu recuar. Não conseguia encontrar uma explicação plausível. Os que estavam com ele também não.

Temos sensibilidade para saber quando parar ou mandar os outros parar. Mas temos bom senso para saber quando devemos descartar essa sensibilidade, para nos dizer quando devemos ser adultos e não fazer um drama de algo simples.
Usamos a sensibilidade nos momentos em que levamos as coisas a peito, mas deveríamos usar o bom senso para nos rimos das situações.Se apenas usamos a sensibilidade acabaremos sozinhos num canto, sem saber muito bem o que aconteceu para ali estarmos.
A vida é simplesmente demasiado curta para levarmos a peito as brincadeiras mais inocentes.

Carlos André da Palma Alves

Control

Ela está na mesa. Traz o seu vestido roxo que tanto tempo demorou a escolher na loja. O dinheiro não foi problema pois os seus pais são ricos. Sorri para as suas amigas. O momento está-se a aproximar e todas as suas esperanças estão depositadas nele. Passados alguns minutos uma voz pede silêncio. Fala sobre como o ano foi importante para todos. Como devem aproveitar momentos como este para se divertirem. E anuncia a Rainha. É ela, ganhou a votação. Sobe para o palco e e toda ela se desfaz em sorrisos. Ela está contente como nunca esteve.
Ele está no seu quarto. Com ele está o seu amigo, estão a fazer um trabalho de pares que está a correr bem. Há muito que sabe que o ama. E há muito que o esconde. A sua mãe traz-lhes o lanche, sumo e sandes. O seu amigo agradece, assim como ele. Ao comerem falam sobre os seus amigos, e de como seria bom combinarem um café juntos.
Dias depois isso acontece. Passam cerca de meia hora no café e depois andam pelas ruas mal iluminadas. É aí que tudo acontece. Nessa noite beijam-se pela primeira vez. Nessa noite começa o seu amor. Nessa noite, são felizes.
Ela tinha acabado de saber, tinha sido aceite na sua faculdade de eleição. No entanto não podia acreditar no que lia, mesmo apesar de nunca ter tido grandes dúvidas acerca da sua entrada. As suas notas eram as melhores da escola. Depressa estava a telefonar á sua melhor amiga. Iam as duas para a mesma faculdade e mal podiam esperar para que isso acontecesse. Os seus pais ofereceram-lhe uma viagem a Itália, o seu destino de sonho. Ela e a sua amiga vão nesse Verão. Visitam Roma, Milão, Nápoles e Veneza.
Foi a sua melhor amiga. Nunca tinha sido muito popular mas era divertida e todos os que a conheciam a adoravam. Tinha feito algumas escolhas erradas mas isso não a afectava muito. Foi ela que lhe deu a experimentar. Pensava que ela se daria bem, que não ficaria muito agarrada. Enganou-se.
Ela tentou esconder isso de todos mas era perfeitamente vísivel a quem prestasse atenção. A pouco e pouco ia caindo um pouco mais. A fugir a meio dos jantares para ir à casa de banho. A desculpar-se a meio das aulas. Começou a pedir mais e mais dinheiro aos seus pais que começaram a suspeitar e lhe tiraram a mesada e qualquer fonte de rendimento. Foi aí que se tornou desesperada. E tomou medidas desesperadas.
Porque o fez? Ele não o sabe. Não queria ficar de fora do círculo numa festa. O seu namorado não estava com ele. Se estivesse talvez as coisas tivessem ido de maneira diferente. Se ele estivesse, talvez ele pudesse ter ficado onde estava e não ter respondido aos apelos dos amigos. Mas respondeu. Minutos depois entrava num mundo inteiramente diferente.
A partir daí tudo se passou muito depressa. Os seus sonhos começaram a desmoronar-se. As suas relações seguiram o mesmo caminho. O que tinha ele? Nada. Nada excepto uma coisa. E quando apenas se tem uma coisa, usamo-la demasiado.
Ela gostava de dizer que estava arrependida. Mas não o pode fazer em boa consciência. Gosta daquilo, dá-lhe uma maneira de escapar aos estudos e a uma vida de stress que a sufoca.
Toda a sua vida agora corresponde ao que esperava mas é ao mesmo tempo menos do que queria. Não se sente realizada, não se sente feliz.

Decide fazer a única coisa que pode fazer. Vai para um parque muito conhecido na zona. Passa por um rapaz que está sentado num banco, ele não lhe liga. A sua primeira vez acontece ali perto. Volta para o seu contacto, paga e recebe.Passados alguns minutos está deitada no sofá, sorri ao olhar para o seu saco. É pequeno, não durará muito mas chega perfeitamente.

Ele está no banco outra vez. Está ali cada vez mais vezes por semana. Uma rapariga passa, é muito bonita mas igual a ele no seu objectivo ali. Sentado, vê os carros passarem com as suas luzes a iluminarem a sua face durante breves momentos. Um deles vira à esquerda e pára. Ele levanta-se.

Ela olha assustada para o que está prestes a fazer. Tem de prestar atenção ao que faz. Se puser demais morrerá. Passados alguns momentos dá-se por satisfeita. Horas depois jaz no chão, morta.

Carlos André da Palma Alves

Last Flowers

Ele está no metro sem saber o que pensar. O sentimento de morte anunciada domina-o e faz com que não consiga pensar. Talvez seja melhor assim. Caminha como num sonho, sem saber muito bem se o céu deveria estar laranja ou verde. Vendo coisas absurdas, construídas por um cérebro que não se lembra da realidade e tenta construir a sua própria versão.
Finalmente chega. Abre a porta a medo, sabendo que o Inverno está aí. As flores não se aguentarão muito mais tempo, já deram demasiada da sua força para se manterem vivas. Terão de desistir. Mas enquanto ele está a abrir a porta, as flores ainda vivem.
Ele está na cama deitado, dorme ou finge dormir. Ele não sabe discernir os dois. A sua respiração está regular e calma. Está a dormir. Ele olha para e pela janela, sabe que será a última vez que vê a paisagem deste ponto de vista. Senta-se na cadeira e sabe que será a última vez que se irá sentar nela.
Já poucas flores restam, muitas morreram de frio nesta estapa. É pena mas elas deram tudo o que puderam. A sua beleza iluminando a vida dele. As suas cores pintando um mosaico de sonhos.
No quarto, ele olha para ele. Vê os seus cabelos. A sua forma pouco clara através dos lençóis. Tenta tomar uma decisão mas aquele estado de alma consome-o a cada segundo, incita-o a prolongar este momento. Mas ele sabe que não pode. Levanta-se e aproxima-se dele. Deita-se a seu lado. Agarra-o e tenta recolher toda a informação que vê e sente. O seu cheiro, a forma como se sente quando está ao pé dele, a maneira como as mãos ficam quentes quando lhe toca. Sabe que tudo isto que sente, está a sentir pela última vez.
Dos seus lábios sai uma palavra ao mesmo tempo clara e indistincta. Amo-te era o que ele queria dizer.
Dirige-se para a porta do quarto. Sente a madeira pela última vez. Olha para ele com os olhos do amor pela última vez. Num assomo de coragem sai e fecha a porta. A partir daí tudo fica enevoado. Será verdade que a porta se fechou em câmara lenta? Será verdade que andou em direcção à porta da casa? Será verdade que não chorou?.
No elevador ele tenta não chorar. Mas não consegue. Encosta-se à parede e deixa-se escorregar até ao chão. Toda a sua força cai com ele. E começa a chorar. Do tecto caiem flores, as únicas que aguentaram até ao fim.

Carlos André da Palma Alves

Ways to escape. (To L)

As noites passam e eu aqui estou. As manhãs passam e eu aqui estou. As tardes passam e eu aqui estou. Os dias passam e eu aqui estou. Os meses passam e eu aqui estou. Os anos passam e eu aqui estou. A minha vida passa e eu aqui estou.
Deitado na cama espero por ele. Chegará em breve, nunca sei muito bem dizer quando. É imprevísivel, todos os dias é diferente.
Não posso fumar mais.
Mesmo apesar de ainda ter maços guardados, sei que não devo fumar mais. A cada cigarro que fumo o seu efeito calmante diminui um pouco, só um pouco.
Sabes, os primeiros dias da minha vida estão esquecidos. Grande parte da minha vida está esquecida. Mas mesmo apesar de me esquecer, lembro-me de quando te conheci. Da primeira vez em que apertámos as mãos.  Nunca me poderia esquecer disso. Há coisas que não se esquecem.
Não posso beber mais.
As garrafas de vinho tinto vão-se acumulando a meu lado, algumas ainda têm algumas gotas. Mas essas não interessam. Ainda estão pelo menos duas garrafas em cima da mesa de cabeçeira. Mas não as beberei. Pelo menos, não por agora.
Espero que também te lembres das coisas que me disseste naquela tarde quente de Verão. Das promessas de amor, amor esse que seria complicado. Que teria de atravessar vários obstáculos. E que atravessou. Lembro-me da tua t-shirt vermelha, do teu cabelo que estava a ficar grande. Lembro-me do sabor da tua boca nessa tarde. Sim, é disso que me lembro mais.
Não posso ler mais.
Acabei agora um livro. Como sempre, levantei-me e coloquei-o na estante. Dezenas, centenas deles estão lá arrumados. Li-os a todos. Mas passaram por mim como uma brisa matinal passa por uma flor. Abana-a na altura mas nada resta dela passados momentos. E ainda tenho alguns que queria ler. Mas não os lerei. Não vale a pena embrenhar-me neles para depois os esquecer.
O zénite chegou naquela manhã. Fizemos amor, foi óptimo, como sempre. Ficámos na cama, á espera que um de nós dissesse que tínhamos de sair. Eu não o fiz e tu também não. Adormeci nos teus braços, nunca me senti tão seguro como naquele momento. Nem tão amado. Também adormeceste abraçado a mim passados alguns minutos. Acordámos horas depois e rimo-nos. Nos nossos telemóveis amontoavam-se mensagens das pessoas que era suposto encontrarmos.
Não posso sonhar mais.
Apesar de não me lembrar de todos, sei que os tenho. A maioria são bons. Não. Todos são bons. Deixo-me levar para outros reinos. Para outros mundos. Para outras pessoas. Neles fujo desta realidade e crio outra. Apanho o comboio e sigo um rumo que se vai formando na minha cabeça com dois segundos de aviso. Acordo sobressaltado. Talvez esta realidade não seja a que eu quero. Mas a que sonhava também não me parecia melhor.
O problema da palavra zénite é que simboliza sempre o crescimento máximo de uma coisa. E a seguir a esse máximo segue-se sempre e irremediavelmente um declínio. Assim foi. Dias depois estávamos naquele banco. Dias depois estavas a dizer aquelas palavras. E dias depois estavas a voltar para tua casa sem um adeus. Dias depois eu ia para casa absolutamente abandonado. Vazio. Sem rumo. Dias depois eu acabava tudo. Sem saber muito bem porquê. Ainda hoje não sei.
Não posso fumar mais. Não posso beber mais. Não posso ler mais. Não posso sonhar mais. Mas, ainda assim, faço tudo isto uma e outra vez.

Carlos André da Palma Alves

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Requiem for a Dream

A criança está no canto da sala. Vê pessoas muito maiores que ela nos seus afazeres. Não os compreende. Sem os compreender continua a brincar com o seu puzzle. Há muitas peças, todas deveriam ser colocadas na moldura para formar uma imagem. A criança assim faz, colocando cada peça no lugar que acha melhor e passados alguns momentos apenas resta uma peça.
É grande, talvez a maior das peças e ajusta-se no centro da moldura na perfeição. A criança percebe este facto e coloca-a no seu lugar. A imagem fica completa. A criança dá-se por feliz.

A criança muda de opinião. Olha para o puzzle e tudo lhe parece bem excepto aquela peça do meio. Decide tirá-la. Coloca outras peças de outros puzzles que remedeiam a imagem mas não a completam. Nunca estará bem assim. O puzzle fica completo mas extremamente incompleto. À criança não lhe interessam esses assuntos, portanto levanta-se e vai brincar para outro lado. E o puzzle ali fica, destroçado na sua solidão. Nunca estará completo a cem porcento. Viverá uma existencia vazia, acentuada pelo facto de um dia ter estado completo. E de ter perdido a peça mais importante.

Parecem tão antigos estes dias. Tão distantes. Já não interessa. Já nada interessa. Na cama tenta lembrar-se de tudo. Mas não consegue. Começa a tocar Mozart. Quem toca, não sabe. Mas sabe o que significa.

Carlos André da Palma Alves

Unplugged

Há muito que sabia que isto iria acontecer. Desde que os primeiros sinais se fizeram sentir. Soube que um dia algo aconteceria. Tal como já tinha acontecido antes mas com diferentes pessoas. Não seria nenhuma surpresa.
Sorria sem o sentir, já no fim. Mas antes era sentido, antes nunca pensava que que se podia chegar aqui. Ou melhor, sabia mas pensava que desta vez seria diferente. Mas não eras diferente de todas as outras. Nem de todos os outros. Eras igual em tudo.
Gostava de fazer qualquer coisa para impedir isto. Acredita que gostava. Mas a minha maneira de ser impede-o. É uma mescla de orgulho, inevitabilidade e talvez estupidez.
Não interessa.
Aconteceu, não rapidamente como seria de esperar. Foi lento. Doloroso. Demoraste mais do que os outros. E agora já não há nada que o possa impedir.
Os médicos olham para mim á espera de uma resposta. Eu faço-os esperar um pouco. Finalmente, aceno e eles avançam sobre a cama. O som estridente das máquinas faz-se ouvir para também ele ser silenciado.
Era isto que queria.

Carlos André da Palma Alves

Time Machine (To Marlon)

Ele acordou á mesma hora a que acordava todos os dias. E repetiu o mesmo ritual que repetia todos os dias: tomava banho, comia e via um pouco de televisão.
Imaginava o momento em que estaria com ele. Contava as milésimas de segundo. E eram muitas, demasiadas. Mas, o momento chegaria. Teria de chegar. Chegava sempre e era fantástico quando acontecia. O encontro de olhares que pareciam palavras. Os pequenos detalhes que lhe pareciam livros. Ele era feliz e sabia-o. E decerto esta felicidade duraria para sempre. Como poderia não durar?
Estavam no quarto, tinham acabado de fazer amor. Ele sentia-se completo, feliz. Tudo antes lhe parecia enevoado. Tudo antes dele. Lutara por encontrar objectivos e conseguiu encontrá-los. Mas depois de concluídos deixavam-lhe sempre um sabor amargo na boca. Até ele chegar. Após o ter encontrado, sabia que nunca mais quereria beijar outra pessoa que não ele. Que nunca mais diria amo-te a alguém que não ele. Que nunca mais seria feliz com outra pessoa ou de outra maneira do que com ele. Ele era o seu objectivo. A sua razão. E tudo o resto empalidecia em comparação, tudo o resto era entendiante e sem sentido. Quando estavam separados, ele apenas pensava nos momentos em que tinham estado juntos. E nos momentos em que estariam juntos. Mas não agora, agora estava com ele e estava bem.
Ele estava sentado. Na sua mão um comando. Na televisão à sua frente viam-se duas pessoas, felizes como nunca antes tinham sido. Sem problemas de maior. Tinham-se um ao outro. Felicidade pura. A imagem começou a mudar, depressa ele carregou num botão e tudo voltou atrás. Felicidade pura, outra vez.
Como é que ele chegou a isto?

                                   ——-//——-

Era de noite e penso que estava atrasada. Deixei o carro perto do Cais de Sodré e fiz o meu caminho para a Baixa. As ruas estavam um pouco vazias, talvez devido a ser hora de jantar. Estava na Praça do Comércio, foi aí que os vi. Estavam sentados num banco de pedra, um sentado, simplesmente e o outro a comer uma sandes. Havia qualquer coisa ali, alguma dor presente naqueles dois adolescentes. Ou talvez só num deles. Talvez… sim, talvez fosse um a sofrer e o outro a receber, partilhar.
O que estava a comer parecia vazio por dentro, sem alma. Quase como se tivesse tudo e tudo lhe tivesse sido tirado. Não. Ele podia dar tudo, agora não tinha ninguém a quem dar. Não.
Ele sofria, complexa e simplesmente.

Carlos André da Palma Alves

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